Existem duas formas de levarmos a vida. Aquela em que efectivamente fazemos alguma coisa por nós, enfrentamos os problemas, tentamos dar a volta, caímos para levantar-mo-nos a seguir. Há aquela maneira em que “no matter what” vamos fazer com que cada dia da nossa vida valha a pena. Acordamos com os contadores a zero, tentando libertar-nos de tudo aquilo que nos posso estar a aborrecer no momento ou que nos possa estar a preocupar. Esta é a forma de viver mais bonita, mas é também aquela que nos dá mais trabalho. Porque desta forma vamos ter que deixar de ter as bengalas, isto é, vamos ter que aprender que não podemos colocar as desculpas nos outros. Vamos ter que aprender a encaixar que, às vezes, as coisas menos boas acontecem por causa de nós e que as relações à nossa volta são 99,9% do tempo reflexo de nós próprios, da forma como nos comportamos com os outros, das palavras que dizemos… muitas vezes, sem nos apercebermos. O sinal de alerta deve ser quando começamos a pensar muitas vezes: “Porque que é que isto me aconteceu?; “Porque é que estão a falar assim comigo?”. Na verdade e voltando a tal segredo da felicidade, a nossa reflexão deve fazer-se numa outra perspectiva, perante a qual nos será mais fácil encontrar as respostas. “O que é que eu fiz que levou a isto?”, “O que é que eu posso fazer de diferente para determinada pessoa não falar assim comigo ou para que tenha outra atitude comigo?”. É difícil, eu sei, mas lembre-mo-nos que ninguém é perfeito, logo, até é capaz de fazer algum sentido que a “culpa” não esteja sempre nos outros.

E aqui chegamos à outra forma de levar a vida. Aparentemente,  mais simples, porque a culpa nunca é nossa, o mundo é que está contra nós. Portanto, nem vale a pena fazermos nada porque tudo o que fizermos vai estar mal, tudo o que dissermos vai estar errado. Posto isto ou optamos por não fazer nada ou, a fazer, fazemos a coisas só para “picar o ponto”, o que de certa forma nos dará argumentos. “Ah, mas eu fiz, tu é que….”; “Isso não é verdade, porque eu pensei em dizer/fazer, mas como tu….”. No fundo, andamos constantemente à procura das desculpas, dos pretextos como forma de legitimar a nossa própria falta de coragem. Na verdade, estamos crentes de que fazemos tudo bem – um bem relativo, diga-se, porque o bem de duas pessoas nunca é sinónimo daquele que é o nosso bem pessoal.

Com o passar do tempo, continuamos a bater com a cabeça nas paredes – sempre por culpa dos outros – até que desistimos. Também não temos muita vontade para conversar, mas se o fizermos, já estamos preparados para contrariar os argumentos da outra parte com um “eu não concordo com isso”; “tu também fazes/dizes isso”; “tu és igual a mim”. No fundo, só temos uma forma de lidar com o confronto: criticando o o outro. Vamos apontar tudo o que o outro fez mal para nos  camuflarmos a nós próprios. Contudo, eu costumo dizer que para criticar é fácil e se estivermos focados nisso, vamos encontrar sempre inúmeras coisas que podemos apontar ao outro negativamente. O difícil é agir pela diferença, fazendo melhor e mostrando ao outro, então, que se faz mal, há uma outra maneira de fazer as coisas, mais harmoniosa e mais positiva. É caso para dizer: Se sabes fazer melhor, então mostra-me como se faz, ajuda-me?!” 

Eu acredito que, mais cedo ou mais tarde, todos nós acabamos por nos encontrar nesta encruzilhada. Chegamos a um ponto da nossa vida verdadeiramente fracturante, de mudança – e vocês vão saber exactamente qual é quando lá chegarem, se é que ainda não vos aconteceu – em que tanta coisa está mal à nossa volta, a perturbar-nos mesmo a sério, que somos forçados a escolher um destes caminhos. Durante um tempo andamos a bater muito mal, com dificuldade em encontrar um ponto de luz, o nosso norte, a saída para aquele buraco negro que se instalou nas nossas vidas. A mudança pelo amadurecimento pessoal é do caraças, mas o proveito que se tem no futuro compensa cada lágrima, cada pedrinha, cada montanha a que tivemos que dar a volta.

Já escrevi sobre relações vazias, hoje escrevo sobre objectivos pessoas e relacionais. Que tipo de pessoas queremos ter à nossa volta?; Que tipo de energias?; De que forma conseguiremos nós gerir tudo isso? Lidar com a cobrança dos outros sem que isso nos leve a tornar-nos um bichinho anti-social?

Eu, que ando sempre a aprender, tento fazê-lo nutrindo-me por dentro, com os meus momentos a sós, que me permitem fazer uma limpeza, ter um filtro e andar em equilíbrio. Torna-se mais fácil, sabendo que eu sou a minha melhor amiga e que as minhas expectativas nas relações têm que ser moderadas ou encaradas sobre uma outra perspectiva. Depois… e isto é aquilo que diariamente me custa mais – porque a exigência psíquica é enorme – guiar os outros, dar-lhes a mão e mostrar o outro lado de fazer a coisas – quase como o velho ditado “água mole em pedra dura…” – é nos pedido elevação, controlo, condescendência, mas, às vezes, pede-se demais!

Quem mais se identifica com isto? Deixem nos comentários 🙂

P.s: Ah! E está tudo bem por aqui (e com a vida em geral), apenas anda numa fase de mais reflexão sobre o que me rodeia e a conseguir escrever sobre isso.

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