Hoje o Vicente cresceu mais um bocadinho e da forma que deve ser, sem a mãe ou o pai para amparar ou proteger. Cresceu ele e eu também, pois tive que segurar o meu coração – nada imparcial – de mãe e fingir que estava tudo bem, enquanto via o Vicente a lutar para crescer logo ali, no exacto momento, tentando vencer todo o seu medo.

Hoje, durante um torneio de Judo, o primeiro que ele fez fora sua escola, o Vicente saiu por completo da sua zona de conforto e só se teve a sim mesmo para se safar. Todo o entusiasmo que ele levava consigo, foi-se perdendo à medida que percebeu que era tudo muito maior do que ele estava à espera. Havia muito mais pessoas, muitas mais crianças, mais barulho e mais confusão. Eram poucos os amigos da sua escola e estavam todos dispersos e o seu professor estava fora do tatami. E, no meio de tudo isto, viu-se um Vicente a ficar perdido e assustado, sem conseguir ter qualquer ponto de referência.

Ainda assim, ele não deixou que esses sentimentos negativos levassem a melhor e nunca desistiu e, por isso, ficou até ao fim. Conseguia entregar-se quando o seu professor falava com ele ou quando um colega seu parava junto de si. Olhava para os pais quase a pedir socorro e nós olhavámos para ele com confiança, porém com o coração apertado – ninguém gosta de ver um filho assim tão aflito, mesmo sabendo que isso faz parte do crescimento.

Por momentos, revi-me nos meus pais, no nosso próprio percurso enquanto pai e mãe e nas dificuldades que essa grande missão nos oferece. E, à medida que o meu tempo de mãe vai passando, há tanta coisa que entendo muito melhor agora e outras que começam a fazer sentido. Regra geral, é nesse momento que me lembro dos meus pais, em tantas coisas que eles me diziam e que nós só lá chegamos mais tarde – mas o engraçado é que chegamos mesmo.

Hoje, a minha vontade tinha sido a de lhe dizer para vir embora e que, afinal, ele não precisa daquela exposição e de ter aqueles sentimentos a atormentá-lo. Afinal, tem quatro anos, podia perfeitamente ter ficado em casa a brincar…. Podia se ele me tivesse dito que não queria ir ou que não gosta do judo, mas nada disso corresponde à verdade! E eu não posso deixar que o meu filho desista por medo ou por achar que não é capaz. Sobretudo, não posso deixar que o meu filho não acredite suficientemente nele. Isso jamais poderá acontecer!

Hoje o meu filho cresceu mais um bocadinho – ou terá sido um bocadão? – e eu senti que alarguei mais um pouco a corda, que o deixei ir mais um pouco no percurso do seu crescimento. Cresceu um Vicente rapazinho e uma Vera mãe, que tem que aprender a gerir estes sentimentos tramados de que os filhos crescem, que é nestes momentos que eles aprendem, que eles ganham estaleca, que espevitam… que se fazem “homens”.

No final, regressamos a casa com mais uma medalha, mas esta já eu lhe expliquei que nada tem a ver com o judo. Esta medalha foi pela sua coragem em nunca ter desistido. E eu regressei a casa cheia de orgulho no meu filho pela lição que hoje aprendeu.

 

Boa noite!

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