Muitas vezes, perguntam-me se gostaria de voltar a sair do país para uma nova aventura. E eu, quase sempre, sem hesitar, respondo que sim, sem que muitos entendam bem o porquê. Talvez a razão seja tão simples quanto eu poder ser daquelas pessoas a quem a mudança não assusta, que acha que a vida e o universo são algo de tão grandioso que não será um desperdício viver sem nunca sairmos do mesmo lugar.

Saí a primeira vez de Portugal para fazer Erasmus, em Itália. Foram nove meses, que se passaram a correr e apenas com uma vinda a casa. Era solteira, queria conhecer o mundo e absorver tudo intensamente, e assim o fiz. Afinal, aquela era uma experiência que não se iria repetir. A segunda vez, saí para ir viver em Bruxelas e foram praticamente dois anos. Foi uma experiência totalmente diferente, mas com o mesmo sentimento de tristeza com a iminência do regresso. Quando isso aconteceu, levei (levámos) muito tempo a sentir-nos em casa de novo, a encontrar uma rotina e, ainda assim, ficam as saudades e é aos fins-de-semana que elas se acentuam. E porquê? Por tudo e por nada, mas sobretudo por um conjunto de coisas que valorizo e que me preenchem intelectualmente: a diversidade, a mistura de culturas, o desafio de me expressar numa língua diferente e a intensidade das relações que se criam com as pessoas que vivem nestas circunstâncias.

Para além disso, quando se vive expatriado inconscientemente sentimo-nos mais livres e, por isso, arriscamos mais e vencemos muito mais a rotina. Os fins-de-semana são oportunidades de descoberta e de aventuras. Em família vivemos muito mais uns para os outros, os laços ficam mais fortes e evitam-se as desculpas, porque tudo se resume a nós e ao nosso núcleo familiar. Amadurecemos, vencemos os nossos medos e aprendemos a reinventar-nos e a recomeçar com o contador a zeros. Aprendemos que somos auto-suficientes e totalmente capazes de fazer o que quer que seja preciso, e de chegar a qualquer lado. E, sim, talvez isso faça de nós pessoas mais independentes e que, ao mesmo tempo, possam parecer mais distantes.

Acredito que, para viver uma experiência desta natureza desta forma, é preciso ter esta predisposição e esta vontade, porque, acima de tudo, é uma experiência de vida bastante dura e também bastante solitária. É preciso ter condições e força de vontade para fazer com que cada dia conte! Nesta última aventura, com o Vicente bebé e um marido com muitas ausências por motivos profissionais, foi precisamente isso que aprendi: a fazer com cada um daqueles dias tenha contado! E, no final, foi por isso que ficou este enorme vazio que o regresso à nossa casa e às nossas pessoas ainda não preencheu.

Quando me perguntam, se mesmo agora, com filhos pequenos, uma vida novamente estabelecida e um percurso profissional a crescer, numa área que de que gosto, será que eu arriscaria de novo? Eu sorrio e respondo, claro que sim, precisamente pelos meus filhos, por mim e pela nossa família.

Sou demasiado feliz a fazer malas e a partir em direcção ao desconhecido e a verdade é que eu tenho uma enorme facilidade em sentir-me em casa em locais onde nunca estive e estranhamente nunca me sinto perdida ou desorientada. Será do signo? Do ascendente? De família? Não faço ideia e os meus pais não foram emigrantes e, de todos, talvez eu seja a única com este espírito livre.

Se, quando estou longe, não sinto saudades? Se não me faz confusão a distância dos meus? Faz, sem dúvida alguma. Porém, até na distância, eu sinto-me muito mais próxima dos meus do que agora. Sinto que as relações estavam muito mais estreitas e que os momentos eram muito mais calorosos quando aparecíamos de visita.

É aos fins-de-semana que sinto mais saudades dessa liberdade e que nos sinto um pouco dispersos uns dos outros. Sinto falta da cumplicidade e da união que era preciso haver para conseguirmos que os nossos dias corressem como desejamos. No entanto, daquilo que sinto mais falta é das viagens e dos locais que descobríamos e do espírito de aventura. É disto que sinto mais falta, sobretudo quando chega o fim-de-semana.

 

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