Há um ano atrás, este foi o dia em que tudo começou, o dia em que comecei a preparar o meu trabalho de parto, com a calma e a serenidade que me tinham faltado da primeira vez. Tinha sido mais um dia normal na minha gravidez, fui ao ginásio de manhã e à consulta da rotina das 38 semanas. Andava mais esquisita – esse é o termo certo – mas depois do último CTG estar tão imóvel quanto uma linha recta, deixei-me andar na minha esquisitice das últimas semanas, sem saber que, em menos de 24 horas, teria a minha filha nos meus braços.

Um ano passou desde esse dia que, para mim, foi o culminar de toda a preparação que vinha a fazer praticamente desde o dia em que soube que finalmente tinha conseguido engravidar – sim, finalmente! Foi um ano absolutamente maravilhoso, mesmo durante os dez meses em que não dormi praticamente nada. Um ano com tanto para contar do tanto que aprendi e vivi.

Nunca quis ser mãe de filho único, havia espaço para mais um nas nossas vidas, mas especialmente na do Vicente. Também nunca quis esperar demasiado tempo entre os dois, sempre achei que as idades próximas seriam importantes para a cumplicidade entre ambos, pois iria facilitar o companheirismo e as aventuras em conjunto. Mas entre o dia em que tomamos a decisão de ter mais um filho e o concretizar dessa vontade, passou-se mais tempo do que aquele para o qual eu estaria à espera e preparada e foi, então, que passei a viver de perto uma realidade que ninguém – que deseja ter um filho – quer viver: a da dificuldade em engravidar.

A rapidez com que engravidei do Vicente, fez-me esquecer que anteriormente me tinha sido sempre dito que seria complicado engravidar. Em menos de um mês estava a fazer o teste em casa, cujo o resultado não oferecia quaisquer dúvidas. Quando voltamos ao assunto do segundo filho, deparei-me com uma realidade completamente diferente. Não havia qualquer hipótese de engravidar e eu fiz o normal que todas nós fazemos: ginecologista, exames e, depois, o procedimento normal de quem recorre a médicos especialistas em infertilidade.Comecei pelas hormonas, passei a fazer as contas aos dias em que devia ter relações sexuais, colocava alarme para não me esquecer do tomar comprimido. E foi este foi um procedimento que repeti todos os dias durante três meses, supostamente emanava fertilidade por todos os meus poros, mas não… estava tudo igual, nenhuma evolução. Mudei de médico, voltei aos exames, as hormonas, à contabilização dos dias em que devia ter relações sexuais. Levei injecções, esperei o tempo necessário e voltei a tentar.

Felizmente o meu processo terminou aqui. Felizmente, consegui engravidar apenas com esta “pequenina ajuda” – para mim não foi, tudo pareceu durar muito tempo, foi muito desgastante fisica e emocionalmente e quer queiram quer não, o corpo da mulher é bastante sacrificado durante todo este processo de engravidar e ter filhos. Porém, tudo isto foi apenas uma gota no oceano daquilo que podem ser os tratamentos de fertilidade, que podem ser muito mais intensos e dolorosos – muitas vezes, mais para a alma do que para o corpo.

Entre engravidar e os nove meses de gravidez, passei muito tempo na parte da infertilidade do hospital, percebi que estava longe de ser caso única e que entre aquelas pessoas, eu era ainda uma privilegiada, porque os primeiros tratamentos tinham sido suficientes. Vi pessoas de todas as idades, percebi que havia casais com problemas mais complexos e passei a reconhecer um brilho diferente no olhar daqueles que venciam a infertilidade e que conseguiam engravidar.

Ainda se fala muito pouco, mas julga-se muito… questionamos com facilidade (e insistência) quando é que um casal decide ter o primeiro filho? Ou, então, senão pensa em dar um irmão ou irmã? Não pensamos que do outro lado, pode estar alguém que quer muito ter um filho, mas que não está a conseguir, que não tem respostas para isso, mas que também não quer ouvir as pessoas à sua volta a questionarem.

Foi um ano se passou sobre esta história da minha vida, com mais uma grande aprendizagem e, mais uma vez, com mais uma prova de superação de mim mesma para dar. Que quando vos digo que a maternidade veio transformar por completo a minha vida, acreditem porque é mesmo verdade!

Para quem passa por uma situação desse género, é normal que, entre outras coisas:
– fique aborrecida quando tentam desvalorizar as coisas dizendo coisas como, por exemplo, “um ano a tentar engravidar não é nada”. Um mês, seis meses, um ano… é tudo demasiado tempo para quem está a tentar engravidar e não consegue por motivos desta natureza;
– a última coisa que queira ouvir seja“abstrai-te, pois vais ver que engravidas num instante!”. Sei que é com toda a boa vontade, mas ninguém que tenha um calendário para ter relações sexuais, comprimidos e injecções para tomar e em que todo o acto do amor natural que gera uma vida é complemente absorvido por procedimentos médicos, consegue estar como se nada fosse!
– a pessoa fuja a dar respostas aos outros;
– não partilhe imediatamente a alegria de saber que está grávida, pelo menos até ter certeza de que está mesmo tudo bem,
– que nem sempre consiga estar feliz quando uma amiga fica grávida, sem sentir imediatamente uma tristeza…

Eu fui acompanhada na PMA (Procriação Medicamente Assistida) do Hospital dos Lusíadas e só tenho coisas muito boas a dizer do meu obstetra em particular, claro, mas também de todas as pessoas que fizeram parte deste processo, que se estendeu até ao dia do parto.

 

Se quiserem colocar alguma questão sobre este assunto, podem fazê-lo de forma privada que eu respondo.
Boa tarde!

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