Existem momentos na nossa vida que parecem encruzilhadas, sem sabermos muito bem qual o caminho que devemos tomar, sabendo que, seja ele qual for, haverão sempre sequelas e marcas. Há momentos em que penso que a vida deveria vir com um controlo remoto que nos permitisse fazer avançar o tempo uns meses, o suficiente para sairmos do demorado impasse que já causa alguma ansiedade por não sabermos o que virá a seguir. 
E no meio disto tudo, a maternidade que, por um lado me trouxe mais força e resistência para nunca desanimar, ao mesmo tempo, torna-me mais fraca e com medo. Penso muito mais sobre as consequências de uma determinada decisão, tenho mais receio de arriscar e, por vezes, mais receio em largar o que não me faz bem, apenas para os proteger. 
Novembro teima em colocar-me grandes dilemas para resolver e por mais que eu pense, não consigo encontrar a resposta certa para cada um deles. Limito-me a ir por instinto e a tentar sentir os sinais que o universo me transmite – eu ainda acredito que nada acontece por acaso – e, sempre acreditando que tudo vai dar certo e que são momentos como este que nos tornam mais fortes a seguir. 
Na semana passada, tomei uma das decisões mais difíceis da minha vida, para uns um enorme acto de coragem, para outros a maior loucura que podia ter feito. Já eu, acho que fiz aquilo que tinha que ser feito, mesmo que o futuro seja ainda uma incógnita e uma incerteza. Fiz aquilo que tinha que ser feito porque andar para trás só iria significar mais sofrimento e mais angústia e isso iria prejudicar sobretudo a minha família, que se tornou a minha prioridade a partir do momento em que fui mãe.
Na semana passada despedi-me – sim, ouviram bem! Na semana passada consegui finalmente libertar-me de anos de abuso de autoridade e de poder baseado em motivos que eu ainda não consegui descobrir. Durante anos, convivi com comentários – aparentemente normais – mas que aos poucos foram minando por completo a minha auto-estima e a minha auto-confiança. Vi o meu trabalho ser avaliado não pelo meu carácter profissional, mas antes com base em critérios relacionados com o meu “aspecto exterior/físico”, algo que aparentemente me colocaria numa vantagem desonesta em relação a outras colegas. Na altura, não tive o discernimento nem a capacidade para perceber a dimensão de tudo aquilo, Sei, porém, que perdi o gosto de me arranjar, que perdi a coragem de olhar as pessoas nos olhos, acordar de manhã para ir trabalhar era um verdadeiro pesadelo, arranjava mil e uma desculpas para não ter que almoçar com os meus colegas e que abdicava das horas de almoço para poder sair o mais cedo possível e voltar para casa. 
Na semana passada decidi despedir-me – esse acto de completa loucura – porque nenhum trabalho justifica qualquer tipo de maus tratos, sejam eles psicológicos, ou de abuso de autoridade. Nada nem ninguém pode interferir na nossa vida, ao ponto de nos retirar a alegria de viver e nos fazer sentir a pior pessoa e a pior profissional do mundo. E mesmo que o medo do desconhecido seja real, a minha sensação de liberdade e de leveza é enorme e consegue superar esse medo.
A pergunta que mais tenho ouvido é obviamente: “então e agora?” Agora vou ser feliz, vou certamente trabalhar muito mais, vou ter que me esforçar mais, talvez não venha um outro emprego com tantas regalias inerentes e mesmo um ordenado fixo ao final do mês, mas vou poder ser quem realmente sou. Não vou ter mais medo das chamadas de atenção ou das represálias “inocentes”. 
Ao longo deste tempo de “mãe a tempo inteiro”, fiz tantas coisas diferentes – e fui muito mais do que apenas mãe – viajei tanto, tive dois filhos, mudei de país, criei este blog que já me proporcionou coisas que nunca pensei alcançar e conhecer tantas pessoas novas e diferentes, algumas delas que hoje são muito importantes no meu dia-a-dia, e com quem consigo falar a mesma língua. Tenho-vos a vocês, que cada vez mais interagem comigo, que me escrevem, dão as vossas opiniões e colocam as vossas dúvidas e, para além de tudo isso, nunca tive problemas em trabalhar. Daqui para a frente, vou certamente viver com menos, mas vou viver feliz e vou poder transmitir isso ao meus filhos, que sou uma mulher realizada e feliz.
Nunca tive oportunidade de fazer a minha carreira na minha área de formação, pois entre o sonho da comunicação e a necessidade de ter um emprego fixo, a última falou sempre mais alto e, com isso, também nunca me senti realizada profissionalmente e quem sabe não será este o meu momento de viragem? 
Novembro tem sido um mês difícil, exigente emocionalmente e isso acabou por me retirar muita  da minha inspiração nos últimos dias. Não consigo escrever quando não me sinto bem ou quando tenho a cabeça demasiado cheia. Mas prometo que isto vai melhorar e o astral vai subir ? 
Como diz a minha querida Catarina Beato, “a vida resolve-se sozinha”
Boa noite.

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