Quem nos segue também pelo Instagram e pelo Facebook já nos ouviu falar da
Ana, que vende flores com a sua bicicleta, a Saudade Flores. Cruzei-me, a primeira vez com ela, no jardim
da Parada, em Campo de Ourique, num dos nossos passeios a seguir à escola.
Podia ter simplesmente passado, ter observado as flores e ter continuado o meu
caminho com o Vicente. No entanto, alguma coisa me puxou para ir mais perto, conhecer a Ana e perguntar-lhe o que fazia ali com aqueles bouquets tão lindos de flores.

E, depois de ter tido a oportunidade de falar um pouco mais com a
Ana e de conhecer um pouco da sua história, foi muito fácil, para mim, perceber
o porquê “daquela atracção”. O seu espírito livre, a sua capacidade
de largar tudo para ser mais feliz – mesmo que isso implique dar um passo em
direcção ao desconhecido – foi como se estivesse a ver-me ao espelho, ouvi-la falar foi como tocar aquele que é o meu dilema interior, desde que regressamos de Bruxelas e desde
que percebi onde sou feliz e onde me sinto realizada.
O facto de ter vivido expatriada, de ter vivido numa cidade cheia
de coisas novas para mim e onde tinha que criar as minhas rotinas e as minhas
relações, tornou-me menos tímida e aguçou ainda mais a minha curiosidade. Criar amizades
novas para mim é natural, fazer uma conversa com conteúdo e interesse com
alguém que não conheço, mas que me desperta a atenção, não me faz confusão.
Pelo contrário, adoro! Adoro perceber que nem todos estamos subordinados ao
convencional, adoro saber que há pessoas que correm atrás dos seus sonhos, mesmo
que isso implique “ficar sem seguro de saúde” – quando alguém diz que
se vai despedir, é com isto que são imediatamente confrontados – correr atrás
daquilo que se gosta, especialmente quando isso implica não ter uma rede de
amparo e não ter certezas se as coisas vão correr bem, não é tarefa fácil e nem
é para todos. É, por isso, que admiro a coragem de quem o faz e que o diz com
um sorriso na cara tão sincero e tão feliz de quem sabe que, independentemente
do que seja o futuro, tomaram a decisão certa.
SAUDADE FLORES, Ana Carolina Rocha. 

1.Quem é a Ana?
A Ana é a Ana Carolina
Rocha, 27 anos, brasileira de São Paulo, designer de moda que trabalhou na área
por 7 anos, em marcas como Zara, C&A, Fila e Asics e, há pouco mais de 1
ano, mudou de rumo profissional, e abriu seu negócio-próprio como florista.
2. Quando chegaram a Lisboa (e o porquê de terem escolhido esta
cidade)?
Chegamos, eu e meu marido
Raphael, em Janeiro deste ano (2015), com o objetivo amplo de simplesmente
viver aqui, o que é assustador e libertador ao mesmo tempo! 
Tínhamos,
individualmente, nossas nacionalidades portuguesas há algum tempo, estávamos
cada vez mais insatisfeitos com o estilo de vida em São Paulo: caótica, hostil,
cada vez mais cara, as perspectivas, para além de São Paulo, também eram de
muita violência e uma crise política e econômica. Somado a isso, eu já tinha
feito a primeira ‘revolução’ que larguei a minha carreira como estilista, para
trabalhar como florista-ajudante numa flowershop de amigas. Meu marido
também já estava disposto a se desligar da carreira de advogado do Estado. E,
assim, viemos, duas malas cada um, mais a bicicleta!
Lisboa foi eleita pelo coração, mas racionalmente também fez total
sentido. Além dos laços familiares portugueses, a cultura, a língua, o estilo
de vida era muito o que procurávamos: uma cidade menor e mais calma, mas ainda
sim cosmopolita. Ensolarada e dourada, mas com vento fresco e estações do ano
definidas!
E em termos econômicos, o custo de vida era compatível com o que
podíamos “arriscar”. Por fim, acreditei desde o início (brasileira
otimista que sou), que mais valia entrar no final de uma crise portuguesa,
criando oportunidades novas para mim e para os envolvidos, do que ser engolida
pela onda ruim que ainda vai atingir o Brasil.
3. De onde vem a paixão pelas flores?
Foi quando comecei a
trabalhar na “A Bela do Dia”, flowershop de São Paulo,
das sócias Marina Gurgel e Tatiana Pascowitch, cuja essência é a mesma
da Saudade Flores (tive a benção delas para traduzir essa ideia para a Saudade!).
Conheci-as pois já era cliente (e também ciclista urbana em São Paulo). Comecei
como entregadora dos arranjos florais de bicicleta, e aos poucos fui-me
encantando com o universo das flores e simultaneamente elas notaram que eu
tinha grande habilidade com os arranjos, e aí os universos se entrelaçaram:
cores, texturas, proporção e forma tem tudo a ver com o que eu fazia até então
na moda, e que passei a aplicar de novas formas com o design floral! Depois de
um tempo, ser florista-assistente já era meu emprego formal e assim foi até
minha mudança para Portugal.
4. Quem “é” a
Saudade Flores e o porquê o nome Saudade?
A Saudade Flores é uma flowershop on
bike
. O ateliê onde os arranjos são criados (e a bagunça que sobra depois)
é o meu quintal, o meu jardim. Mas o transporte, venda, exposição dos ramos é
feita toda na bicicleta pelas ruas de Lisboa.
Eu, Ana, como sócio-fundadora, sou responsável por todo
branding, business-marketing e a parte prática da compra das flores direto nos
produtores, design floral, transporte e venda.
O nome Saudade me surgiu no processo de mudança para Portugal,
entre as festas de fim de ano com os familiares, já havia um clima de
despedida.
Raphael, como sócio, é responsável pela parte
administrativa, jurídica, e divide a gestão financeira comigo.
Saudade era a palavra que interligava todos os pontos: palavra
forte e delicada ao mesmo tempo, de imenso significado, significado esse único
na língua portuguesa, que por sua vez é o que liga o país de onde vim ao que
estou, e é o sentimento de maior presença em minha vida. Por fim, quando se
leva um raminho de flores para casa, para si ou para alguém, essa é uma forma
de dizer coisas, é energia e interação. Saudade é tudo isso. Nem muito
melancólico, nem de todo radiante!
5. Como tem sido a
integração e como é que as pessoas têm “recebido” a Ana e a sua
bicicleta?
A integração tem sido muito positiva! Estou a testar a venda e a
“passagem” por diversos sítios da cidade. Alguns são mais receptivos,
outros menos. E a recepção não está diretamente ligada a vender muito. Há dias
que converso e troco idéias com diversas pessoas de um bairro, e é ótimo, mas
não vendo nada! Fico rica em outros sentidos!
Mas no geral o propósito da Saudade Flores está
se cumprindo: é vender ramos de flores mais modernas, a preços acessíveis, na
bicicleta, para uma maior interação com a cidade, com as pessoas.
E eu já tenho ouvido por aí “a menina das flores”, a “florista na
bicicleta”
. Isso diz tudo.
6. Onde podemos encontrar
a bicicleta actualmente?
Já temos uma clientela a se formar em Campo de Ourique, no Jardim
da Parada. Fico por lá as quintas e sextas-feiras a partir das 17h, até no
máximo 20:30h.
Além deste sítio, participamos de alguns eventos, temos já alguns
assinantes mensais dos arranjos, o que faz da nossa agenda “flexível”, a
bicicleta acaba por transitar por diversos sítios. Mas sempre avisamos através
de nosso Facebook e Instagram, onde vamos em cada dia, para que as pessoas possam nos contactar ou nos
encontrar!
7. Planos para o futuro?
Ainda estamos em versão “beta” por assim dizer. Estamos
cumprindo todas os passos jurídico-administrativos e assim que tivermos tudo
aprovado, a nossa bicicleta oficial da Saudade Flores entrará em cena, elétrica
(pois hoje é com a minha de 7 mudanças e minhas pernas, a subir essas colinas
todas!), equipada e adaptada para vender, expor, embalar os ramos de flores.
Paralelo a este processo, queremos estabelecer
mais assinaturas mensais com empresas, escritórios, lojas, restaurantes e
pessoas que queiram seus ambientes decorados com flores frescas repostas
semanalmente, mas com custo fixo mensal.
E, a longo prazo, estimo um ateliê-loja em um sítio de boa
localização (principalmente para peões e ciclistas!). Nos dias muitos quentes
ou muitos frios, as flores e a florista agradecem!
8. Três palavras que descrevam a Saudade Flores?
Fresco. Criativo. Acessível.
9. É fácil andar de
bicicleta em Lisboa?
Olha, vinda de uma metrópole de 10 milhões de habitantes, eu posso
dizer que sim!
A geografia certamente é mais difícil que São Paulo (lá há
colinas, mas há ‘rotas alternativas’ também), e também por este fator, há pouca
adesão a cultura da bicicleta aqui, o que vem mudando muito, graças a uma malta
de ciclo-ativistas alfacinhas!
A educação e respeito no
trânsito, em geral, são mais notáveis aqui, apesar de
eu não perceber o porquê de alguns desvios de ‘conduta’ aqui…como
por exemplo as pessoas todas estacionarem seus carros em qualquer sítio
literalmente…atrapalhando peões, ciclista e outros motoristas que fazem uma
sinfonia de buzinas nessas ocasiões.
Resumindo, nem tão São Paulo, nem tão Copenhagen!

O
facto de ser brasileira, com o seu jeito mais caloroso de falar – não fiz qualquer
correcção ao seu “português” –  pode ajudar, porém penso que a
boa energia que a Ana nos transmite está para além do seu sangue brasileiro.
Assim, a minha sugestão é que passem pelo Jardim da Parada, a uma quinta ou
sexta-feira, ao final da tarde, procurem por esta linda bicicleta, parem para
ver as flores e junto delas vão encontrar a Ana com um enorme sorriso… com um sorriso de gente que é feliz!!!  
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Querida
Ana, muito obrigada por todos os minutos de conversa que me dispensas, pela tua
simpatia e pela tua boa energia. Desejo-te muito sucesso e vou estar por perto
a acompanhar a evolução da Saudade Flores! Até breve!

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